quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Remendada

Imagem retirada do Deviantart

Eu sou uma viajante do tempo e do espaço.
Carrego comigo mesma uma mala antiga cheia de partes atassalhadas e remendadas, que advertem as minhas próprias costuras. Ando a trancos e barrancos. Tropeço em cada esquina, em cada pedra deslocada. Sou baixinha, desarticulada e tenho os olhos pequenos e marrons.
Em minha mala, carrego um livro e uma caneta. Nunca um conjunto de folhas. Apenas uma caneta, porque a julgo imperativa. Contudo, um conjunto de folhas? Inútil. Uma anotação de ideias é excessivamente vaga para fazer alguma diferença. Portanto, transporto apenas uma caneta para me lembrar constantemente de minha afabilidade por palavras.
Admiro o som da caneta deslizando no papel, o ruído da chuva atingindo a grama, o rugido furioso do vento, o balançar das folhas e o tac tac das teclas do computador. Anseio por manter as coisas certas, organizadas e sempre medidas a régua. Tenho ciúme de itens insanos e sem importância e ainda valorizo a inauguração de coisas. Creio que tudo deve ser inaugurado no mundo. O próprio mundo deveria ter sido inaugurado.
Quiçá se eu saísse caminhar pelas ruas de asfalto danificado pelo tempo, conseguisse encontrar mais estranhas afeições. Todavia, limito-me ao espaço de minha casa, o lugar de onde eu consigo analisar o sol e a chuva, o dia e a noite, as nuvens e as estrelas. Por ora, esses pequenos detalhes são o suficiente.
Mesmo quando nos abrigamos em um casulo, somos capazes de observar a luz do dia.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Certo e Errado

Creio que a divisão entre certo e errado seja demasiadamente complexa para nós, na condição de humanos, entendermos. Há uma probabilidade de que ela não exista. E outra probabilidade menor ainda de que não a entendamos. No entanto, sempre há uma possibilidade que acende a luz da dúvida. Essa eu não gostaria que fosse solucionada.
Essa instabilidade que oscila entre a certeza e a dúvida é, no mínimo, atormentadora. E se não for certo? E se o certo simplesmente não existir? O que faríamos se soubéssemos ao certo o que é certo? A rebeldia continuaria sendo melhor? Tenho certeza de que não há nenhuma certeza, entretanto isso já não seria uma certeza?
Quando eu fecho meus olhos bem apertados, consigo enxergar as estrelas. É uma nova forma de vê-las. Um resgate de quando as cortinas do meu quarto estão fechadas. Elas sempre estão fechadas, principalmente durante a noite. Seria certo me esconder? Fechar as cortinas e esperar que ninguém me encontre? Gosto de pensar que sim. Gosto de pensar que tudo o que faço é certo, porque se pensasse que tudo fosse errado me atormentaria ainda mais. Já não somos suficientemente atormentados? Então vamos fazer o que acreditamos que seja o certo. Quem garante que é uma atitude correta? Mas, em contrapartida, quem garante que o que consideramos errado seja errado? É relativo. Muito relativo. Tanto que mal posso falar, pois minha opinião oscila penosamente. Estou eu certa ao escrever isso? Quem pode me dizer isso? Ninguém? Mas isso seria certo?
Eu gosto da dúvida. Gosto da ideia de que não exista certo e errado, mas que simplesmente exista. O gosto amargo da dúvida se torna doce quando penso nesse assunto. O amargo do erro evapora. O doce do acerto se vai. Não existe nada, simplesmente uma vaga impressão de que seja melhor viver cada dia como se fosse o último, do que se questionar se o que estamos fazendo é certo.

Uma linha divisória seria capaz de diferenciá-los? Creio que não, pois há diversas perspectivas. Qual a sua perspectiva sobre a vida? Certa ou errada? Ou nenhuma? Ou todas? A vida continua sendo um mistério que eu, sinceramente, não gostaria que fosse desvendado. 

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Leitura


É um sentimento arrebatador. Ler aquelas palavras impressas em papéis amarelados com cheiro inebriante e sentir algo tão difícil de interpretar. Entrar dentro de uma nova história, em um novo contexto, com novas pessoas e se sentir em um lugar tão aconchegante. Sofrer com os personagens, querer envolvê-los, querer consolá-los, querer fazê-los acreditar que no fim eles vão sobreviver. Talvez sobrevivam, talvez não. Mas é só uma história, como qualquer outra. É só uma história como a minha, que acabará em morte. Será que o fim terá uma frase memorável? Será que minhas palavras tocarão o coração de outras pessoas? Será que eu sou digna de ter uma história impressa em papéis amarelados com cheiro inebriante?
Aposto que sim. Todos merecemos. Todos construímos histórias de luta e superação, com sofrimento e desistência, mas que tocam a vida de outras pessoas. Pode ser que toquem a vida de apenas uma pessoa, de várias ou de uma nação inteira. Quem sabe? O que você fez hoje que possa mudar o pensamento de alguém? Nada? Tudo bem, eu te entendo. Muitas vezes simplesmente não temos disposição para mudar a vida de alguém. Contudo, isso não nos impede de encontrarmos histórias que possam nos mudar. Que toquem a nossa alma e nos impeça de continuarmos na mediocridade.
Enquanto eu leio, meu coração fica em minha mão. Não suporto deixá-lo em meu peito. São emoções demasiadamente intensas para que ele aguente em meu peito. Por isso o arranco de mim e faço um esforço enorme para não chorar. Mas é inevitável. As lágrimas sempre alcançam meus olhos e embaçam minha visão. No entanto, elas ficam lá. Paradas. Nunca escorrem em cachoeira por meu rosto. Em vez disso, acumulam-se em meus olhos junto com a dor do sofrimento dos personagens em meu coração. E então eu tenho vontade de arrancá-los fora, mas sem eles eu não poderia ler. E sem o meu coração, eu não poderia sentir. Portanto, devolvo-os para seus devidos lugares e tento suportar o arrebatamento.
No final eu sempre sobrevivo, muitas vezes com a sensação de dever cumprido e outras com a necessidade de mais. Mas também há situações que eu saio despedaçada, com uma parte faltando dentro de mim. Não é tão raro um livro levar uma parte de mim junto dele. 

sábado, 7 de junho de 2014

(In)decisões

(Imagem retirada do Deviantart)

Diante daqueles conflitantes pensamentos, calei-me e fechei meus olhos. Era tolice, eu tinha certeza. Eu não me sentiria aliviada ao fechar os olhos, em vez disso, trancar-me-ia na mesma prisão da qual eu gostaria de me libertar. Talvez o mais adequado fosse libertar as minhas lágrimas a fim de aliviar-me, todavia elas não chegavam até meus olhos. Ficaram presas em meu coração despedaçado.
Mesmo com um milhão de tentativas, não fui capaz de desacelerar meus pensamentos. Eles me corroíam, me consumiam, me esgotavam. Dilaceravam-me lentamente, tortuosamente. Não tinham piedade de mim. Estava quebrada, arranhada, corrompida. E não sabia o que fazer a respeito.
E quando tudo que você acredita na vida se desmonta? Escorrega por entre os vãos de seus dedos e se espatifa em milhões de pedacinhos no chão? Você pode recolher esses pedacinhos e tentar se remontar, no entanto talvez tenha uma parte que nunca se encaixe em lugar algum. Ela sempre ficará de fora e sua ausência lhe incomodará, não importa quão esforçado você seja para ignorá-la. Afinal, aquilo também é seu. Mesmo fora de você, continua sendo uma parte sua.
Talvez em algum outro dia ou em alguma outra hora você se reencontre. Pode ser em uma esquina qualquer, em sua casa ou em uma pessoa. Inimaginável. Quem sabe você tome uma decisão certa, se é que existe alguma errada. Talvez seja possível se remendar; quem nunca teve que usar algum pedaço de outra coisa para remendar alguma parte rasgada? Aceite, você também pode ser rasgado. Você pode ser rasgado por suas (in)decisões e ter que aprender a costurar a si mesmo. É a vida, simples assim. Acontece com todo mundo. Comigo também aconteceu.
Minha vida dependia daquilo. De um sorriso ou de um pró. Mas tudo estava contra. Contra mim, contra o mundo. Você está contra a vida mesmo quando a chuva lava sua alma? Eu, geralmente, sim. Minhas palavras são traduções de sentimentos que eu quero deixar para amanhã ou para nunca mais. E se eu decidir não decidir? Será o crime perfeito? Queria que fosse. Ah, como queria! Porém a realidade é muito mais cruel que isso. Afinal, ela faz parte da vida que ignora a fantasia. Vamos criar uma nova fantasia onde a decisão é não decidir? Vamos ignorar o mundo e construir um novo lugar para ficar? Não precisa ser perfeito, só precisa ser um lugar para ficar. Vamos chorar pelas perdas e sorrir pelos ganhos, mesmo que esses não sejam tão bons quanto o esperado?
Uma decisão. Uma perda, um ganho. Deixe-me ganhar a vida. Deixe-me vencer a minha própria batalha. Não me importo em perder as batalhas contra o mundo. Decido vencer minhas próprias batalhas. Mesmo chorando. Mesmo não deixando a chuva lavar minha alma. Eu aceito. Com um sorriso na boca e lágrimas nos olhos, eu aceito.

sexta-feira, 14 de março de 2014

O Talvez e a Certeza

Prezado Senhor Talvez,
Venho por meio de esta carta informar-lhe o quanto o senhor está embaraçando minha função na vida da sociedade. Gostaria de pedir-lhe encarecidamente que me dê espaço para fazer aquilo que posso. Peço licença para que eu possa abraçar causas tristes com minhas mãos mornas e macias e acalentar, desse modo, as dores do mundo. Acho suas mãos frias e ásperas úteis — não me compreenda de uma maneira errada —, contudo penso que elas possam me dar licença, pelo menos em algumas situações.
É possível que o senhor não entenda sobre o que eu esteja falando. Irei esclarecê-lo. O caso é que a sua ditadura está preenchendo todas as lacunas do mundo e não vejo um espaço para infiltrar-me nelas. E, caso queira contestar, tenho diversos exemplos que explodem em todos os segundos no planeta. Tenho meus motivos e irei apresentá-los conforme foi dito.
O senhor oferece ao mundo dúvidas; eu ofereço a salvação. Citarei diversas frases onde o nome do senhor aparece para que assim possa visualizar melhor o que quero lhe repassar.
“Talvez se eu parar de respirar o mundo se torne um lugar melhor”, “Talvez as nossas lágrimas sirvam para aliviar”, “Talvez nossas lágrimas sirvam para potencializar a sensação de tristeza ou felicidade”, “Talvez o mundo fosse melhor se todos contribuíssem para seu andamento”, “Talvez o mundo fosse melhor se cada um cuidasse de sua própria vida”, “Talvez a pressão psicológica diminua se eu aceitar as regras”, “Talvez se eu desobedecer às regras eu consiga vencer a pressão”, “Talvez se eu respirar fundo e sorrir, eu consiga alcançar a felicidade”, “Talvez se eu respirar fundo e desabar a chorar, a tristeza me domine”, “Talvez a felicidade seja impossível”, “Talvez a felicidade esteja em todo lugar acontecendo o tempo todo”, “Talvez o mau humor seja controlável”, “Talvez o mau humor seja algo que nada possa modificar”, “Talvez a tristeza seja tudo”, “Talvez o mundo queira consumir todas as nossas energias”, “Talvez o mundo queira nos dar energia”, “Talvez alguns segundos de felicidade compensem um ano de tristeza”, “Talvez a tristeza não consiga ser compensada”, “Talvez o ser humano seja o animal mais inteligente”, “Talvez o ser humano seja o animal mais cruel”, “Talvez o planeta seja demasiadamente grande”, “Talvez o mundo seja demasiadamente pequeno”, “Talvez existam mais pessoas ruins a pessoas boas”, “Talvez essa vida esteja lotada com pessoas de boa intenção”, “Talvez a vida seja péssima e exista para nos entristecer”, “Talvez a vida seja a nossa maior dádiva”, e assim por diante.
Conseguiu observar, senhor Talvez? Eu estou sem espaço na sociedade. Com todas essas dúvidas onde as certezas podem ser colocadas? Com toda essa desesperança como eu posso mostrar o lado bom das situações? Sabe aquela pequena lista de certezas que tínhamos? Ela está reduzindo, reduzindo e reduzindo e, em algum momento, se transformará em pó.
Suplico algum tipo de ajuda. Compartilhe comigo os ombros das pessoas, assim poderemos atuar juntos, enchendo-as de dúvidas e depois as oferecendo certezas. Podemos também compartilhar pés, onde eu acaricio o direito com minha pele morna e macia e você massageia o esquerdo com sua pele áspera e fria. Não precisamos agir de modo separado. Vamos misturar as temperaturas, as perguntas e as respostas.
Senhor Talvez, eu posso envolver-lhe com meus braços para lhe dar uma sensação boa uma vez na vida. Pare, eu imploro, de encher o mundo de dúvidas. Deixe-me dar algumas certezas. Serão poucas. Prometo. Meu desejo consiste simplesmente em amenizar as situações ruins vistas atualmente.
Desde já agradeço sua compreensão.
Atenciosamente,
Certeza. 

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

2013

Provavelmente, farei esse texto por costume. Costume de um único ano. Ou talvez alguém tenha me pedido. Ou, simplesmente, tive vontade de fazer isso, para potencializar o quanto esse ano foi bom.
Às vezes não percebemos, mas as felicidades superam as tristezas. Pode ser que não em número ou quantidade. E sim no simples fato do quanto uma alegria pode ser arrebatadora. Senti-la, mesmo que uma única vez, é uma sensação incrível. Estonteante. E por esse motivo talvez ela se torne rara. Por ser única. Senti muitas alegrias esse ano, assim como a tristeza se abateu em mim. Ganhei coisas e perdi coisas. Contudo, essa não é a vida e não estamos aqui para vivê-la?
Eu tinha uma meta. Sonhos, muitos sonhos, assim como qualquer um. Entretanto, quando um sonho se realiza, ficamos mortificados e nos sentimos vazios. Chega a pergunta: "e agora?". Percebi que a vida não deve ser um planejamento, assim como uma casa é planejada. Ela deve ser vivida. Construir metas e criar sonhos é uma besteira, então? Minha resposta é: de maneira alguma. Os sonhos são bons e nos focam por algum espaço de tempo. Metas também. Porém viver sobre eles e somente isso se torna algo errado. Portanto, acredito que devemos nos surpreender. Com uma pessoa e com uma atitude. Devemos ser flexivos, mudar de ideia se acharmos necessário. Devemos a cada ano ser uma nova pessoa. Vamos nos reinventar à meia noite, quando a virada do ano acontecer. Estamos vivendo o último dia de um ano cheio de acontecimentos nesse exato momento e podemos começar tudo de novo. Podemos sorrir mais vezes, aceitar mais vezes. Vamos mudar porque o mundo precisa disso: de pessoas que queiram mudar. Não fuja de quem você é hoje, mas seja outra pessoa amanhã. Alguém melhor.
E sorria, porque o mundo necessita de pessoas que sejam capazes de sorrir. Feliz ano novo!

Bom, bom, bom. A Flávia que me disse: "Lê, você vai escrever um texto sobre 2013, né?" e está aí. Portanto, dedico esse texto a ela, que se mostrou uma amigona. Obrigada por ter ajudado esse ano valer à pena. Te amo <3

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Amo-te tanto, mãe

O cheiro escalou a parede, pulou a janela e acertou em cheio minhas narinas, que automaticamente o clamaram novamente, fazendo minha cabeça dar voltas incoerentes. 
Eu conhecia esse cheiro. Era o cheiro do velho bolo de minha mãe, que por um longo tempo eu rejeitei, sem saber o que estava perdendo. Tenho vontade de largar tudo o que estou fazendo no computador apenas para correr escada a baixo, com o intuito de comer um pedaço dele quente. Sempre sentia um prazer estranho ao comer pedaço de bolo quente, apenas por sentir a massa morna se desmontar delicadamente em minha boca. Minha mãe nunca o negou, pelo contrário, sempre acompanhou-me nesses casos. 
Ela me acompanha (me acompanha) sempre. Companheira no mais belo amor de mãe e filha. Ela me acompanha quando estou me divertindo e está sempre a meu lado quando estou triste. Nossa relação é viva, cheia de alegrias e brincadeiras, principalmente de zombarias. É como se tivéssemos nascido para sermos melhores amigas, e acredito que esse sempre foi o caso. 
Toda noite eu olho para o relógio e penso se está na hora ou não. Aproximadamente 20h00 minha mãe chega em meu quarto com um copo de leite duplo e com uma salada de frutas, sempre com maçã e laranja e, às vezes, alguns complementos. Ela vem me dar benção e boa noite. Nossas falas já são decoradas: "Durma com Deus, com os Anjos, com Nossa Senhora e com Jesus" "Amém, você também e durma bem", geralmente é nessa altura que ela me dá um beijo na testa. "Te amo, mãe" "Também te amo", e então ela fecha a porta e me deixa com meus pensamentos e reflexões e com seja o que for que eu esteja fazendo no computador. 
Está certo que eu não vejo o cotidiano e que não olho para fora das quatro paredes de meu quarto, mas eu tenho meu cotidiano dentro de minha própria casa. Minha rotina custa a mudar e, quando muda, é muito lentamente. Minha rotina é quase inexorável, onde movo um pauzinho ou outro, mas a construção permanece a mesma, com os mesmos costumes e manias de anos atrás. 
Fizemos um acordo de trocar as expressões em fotos. Eu normalmente dava um sorriso sem mostrar os dentes e ela dava um sorriso mostrando os dentes e a felicidade que sempre emana de seu corpo, mas invertemos e nos identificamos mais com isso. Eu não gostava de mim nas fotos e ela não gostava dela nas fotos, então, com os rostos parecidos, invertemos as coisas e para nossa surpresa foi a nossa maior solução. 
Nem comentarei das horas que passamos conversando na cozinha depois de o almoço terminar. 
Amo-te tanto, mãe, que por vezes não consigo demonstrar. Amo-te tanto, mãe, que esse amor no meu peito sequer consegue entrar.