quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Remendada

Imagem retirada do Deviantart

Eu sou uma viajante do tempo e do espaço.
Carrego comigo mesma uma mala antiga cheia de partes atassalhadas e remendadas, que advertem as minhas próprias costuras. Ando a trancos e barrancos. Tropeço em cada esquina, em cada pedra deslocada. Sou baixinha, desarticulada e tenho os olhos pequenos e marrons.
Em minha mala, carrego um livro e uma caneta. Nunca um conjunto de folhas. Apenas uma caneta, porque a julgo imperativa. Contudo, um conjunto de folhas? Inútil. Uma anotação de ideias é excessivamente vaga para fazer alguma diferença. Portanto, transporto apenas uma caneta para me lembrar constantemente de minha afabilidade por palavras.
Admiro o som da caneta deslizando no papel, o ruído da chuva atingindo a grama, o rugido furioso do vento, o balançar das folhas e o tac tac das teclas do computador. Anseio por manter as coisas certas, organizadas e sempre medidas a régua. Tenho ciúme de itens insanos e sem importância e ainda valorizo a inauguração de coisas. Creio que tudo deve ser inaugurado no mundo. O próprio mundo deveria ter sido inaugurado.
Quiçá se eu saísse caminhar pelas ruas de asfalto danificado pelo tempo, conseguisse encontrar mais estranhas afeições. Todavia, limito-me ao espaço de minha casa, o lugar de onde eu consigo analisar o sol e a chuva, o dia e a noite, as nuvens e as estrelas. Por ora, esses pequenos detalhes são o suficiente.
Mesmo quando nos abrigamos em um casulo, somos capazes de observar a luz do dia.

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