domingo, 5 de novembro de 2017

Sem escapatória - 09/02/2016

Não era para ser assim.
Eu imaginava algo mais fácil, simples e óbvio. “Estar a fim” era o termo certo. Eu estava a fim. Já estive a fim. Mas então algo mudou.
Em vez de acreditar em teorias de que o meu “estar a fim” era recíproco, eu comecei a me deixar levar. Simplesmente fui junto com a onda. Mudei de ideia algumas vezes enquanto ainda estava presa na ideia da reciprocidade. O que não é sentido mutuamente não deve ser sentido, certo?
Se for o certo, então eu estou toda errada.
Porque houve um momento que eu já não me importava. Ou, melhor dizendo, que já não fazia mais diferença. O fato de ter o meu sentimento correspondido já não afetava mais ele; eu continuaria sentindo apesar disso.
Quando eu perdi o sono por uma preocupação que não era minha foi a primeira vez que eu senti o amor. O real amor. Aquele dos livros, dos contos de fada, aquele que diz para cuidar. Aquele que diz que você se importa totalmente com a pessoa e por um segundo esquece de si mesmo. Foi esse o amor que eu senti; e ele foi inteiramente por você.
Aquilo que era para ser apenas um simples “estar a fim” se tornou algo que eu não posso mais descrever. Eu já estive a fim, mas hoje não mais. Hoje eu estou mais que isso. Estou inteira, entregue de um jeito que eu jamais pensei que estaria, cheia desse sentimento que não posso nomear.
Não era para ser assim.
Não era para passar dos limites ou se tornar incompreensível. Não era para não ter nome. Eu não pretendi nada disso quando comecei a brincar de “será que ele está a fim de mim também?”.
Mas foi exatamente assim.
Aos poucos e definitivamente. De um jeito que me deixou sem escapatória, mesmo que eu não saiba se quereria escapar caso tivesse opção. Talvez eu simplesmente não queira.
Porque não era para ser assim, mas foi exatamente assim.

E eu acho que esse é o único jeito que tem que ser.

Sobre acreditar no amor - 29/01/2016

— Deixe-me te amar — sussurrei ao seu ouvido. — Não me impeça disso.
— Eu não posso te impedir disso — ele respondeu, virando seu rosto para mim e forçando um sorriso. — Não posso mandar nos teus sentimentos.
— E nem nos teus! — protestei. — Pare de pensar um pouquinho sobre o que é o amor e se permita sentir.
— E como que eu posso me permitir sentir? — ele debochou. — Escute, isso não faz o menor sentido. Não acredito no amor. Nunca vou amar. Ponto final.
— Não tem ponto final nisso — encarei-o firmemente. — Eu vejo nos teus olhos... O sentimento, tão claro, tão absurdamente óbvio. Pare de renegar isso.
Ele respirou fundo e fechou seus olhos.
— O que é amor? Quero uma resposta pessoal. Nenhuma citação de livro nem nada. Apenas… o que é o amor para você?
Ele continuava de olhos fechados e parecia relaxado. Talvez quisesse apenas me ouvir. Talvez apenas bastasse a minha voz trazendo a resposta que ele incansavelmente procurava para que ele conseguisse sentir.
Suspirei e tentei ser o mais sincera que eu conseguia.
— O amor não é eterno, para mim. Não é porque eu amo alguém hoje que eu precise amar essa pessoa pelo resto da vida. Não acho que funcione dessa forma… O amor é esse estado de espírito em que tudo parece um pouco no lugar. Pelo menos um pouco, sabe? Qualquer coisa parece melhor, mais leve, mais colorida. O amor é esse sentimento forte de… conexão. Querer estar perto. Querer abraçar, tocar, compartilhar momentos. Se preocupar. Sentir pelo outro, com o outro. Estar juntos. Esse é o amor. E não, para mim ele não é imutável. Para mim ele dura por algum tempo e, exatamente por isso, precisa ser aproveitado da melhor maneira. Cada segundo tem que valer e tem que ser lembrado como o melhor segundo — respirei fundo. Ele parecia concentrado, absorvendo cada uma de minhas palavras e mastigando-as em sua mente. Eu conhecia sua expressão quando ele se concentrava em algo e pensava sobre aquilo; olhos fechados, uma pequena ruguinha em sua testa, boca entreaberta. — Não abra seus olhos — pedi.
Procurei por um fone de ouvido e o pluguei no meu celular. Queria achar uma música que transmitisse sentimentos, paz e muito amor. Colour me in, do Damien Rice me pareceu uma opção ótima.
Coloquei delicadamente os fones em suas orelhas. Ele se assustou um pouco com o toque inesperado, mas não reclamou quando a música começou a tocar. Respirei fundo e me encostei no banco ao seu lado, pretendendo esperar por sua reação à música.
Senti seus dedos deslizarem por minha mão poucos minutos depois. Quando o olhei, lágrimas escorriam do canto de seus olhos. Imaginei que a música tivesse chegado ao seu ápice e encaixei minha mão na sua, entrelaçando nossos dedos e permitindo que ele a apertasse fortemente.
Ele ficou mais um tempo com os olhos fechados e tirou os fones quando finalmente os abriu. Seus olhos não pareciam seus; banhados em lágrima, o castanho ficava mais acentuado. Era tão bonito…
— Eu te amo — ele sussurrou timidamente.
Senti meu coração aquecer no mesmo instante. Como se a água do chuveiro tivesse mudado de gelada para quente; meus músculos relaxaram com o calor repentino e agradável. Sorri.
— Sério?
Hoje — ele enfatizou. — Eu te amo hoje. E talvez amanhã também… Por quanto tempo esse sentimento de que tudo está no lugar certo durar.
— Tudo bem — sussurrei e toquei em seu rosto. — Eu também te amo hoje. E vamos nos amar até onde der, mas somente até lá. Eu prometo. Vai ser o suficiente para criar ótimas memórias e para fazer cada segundo contar.

— Sim… — ele concordou e encostou nossos rostos. — Vai ser o suficiente — disse antes de colar nossos lábios em um beijo apaixonado. Um beijo cheio de amor.

Fim de ano - 15/12/16

Eu costumava ter medo de começos. Eles me apavoravam ― e muito. A ansiedade e o nervosismo chegavam e eu não melhorava nada até começar. Qualquer coisa. Um livro, um texto, um ano. E esse ano, como em todos os outros, eu estava com esse medo insano de começar. Medo de que tudo desse errado, de que nada saísse como planejado, de que os sorrisos não superassem os choros. Medo era somente o que eu sentia.
No entanto, ao longo do ano eu percebi que as coisas deram certo. Nem tudo como o planejado, mas algumas vezes até melhor que isso. E, acima de tudo, os sorrisos definitivamente superaram os choros.
Foi quando eu percebi que, pela primeira vez, o que me dava medo era o fim. Porque eu não queria que acabasse. Porque eu não queria que ele chegasse como chegou; em um momento estava tão distante e no outro estava logo ali. Mas era também um medo diferente ― não tinha mais a ver com ansiedade ou nervosismo ― e sim com a tristeza da percepção do fim.
Fins nunca me incomodaram. E eles realmente não incomodam, quando a mudança é para melhor e não há nada para deixar para trás. A diferença de todos os fins, é que esse tem muita coisa para deixar para trás. Uma etapa, como chamam, ou um pedaço, como eu chamo. Porque é um pedaço de tudo que vai ficar para trás e a única coisa que vai sobrar vão ser as lembranças e nem sempre elas serão o suficiente.

Porque o fim chegou. E ele não deveria, sinceramente, nem existir. 

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Quando eu estiver triste...

Não tente me deixar menos triste. Não vai funcionar. “Vai dar tudo certo” e “tudo vai melhorar” são clichês e óbvios que eu não preciso ouvir da sua boca; me basta os outros para falarem assim comigo. Diga que eu fiz tudo errado, mas que vai aguentar comigo essa barra. Diga que as coisas não vão melhorar tão cedo, mas que eu preciso seguir em frente ― e que você vai seguir junto.
Já estou cansada dos votos otimistas e não quero mais eles. Quero alguém que sinta a tristeza e a desmotivação junto comigo e que saiba que eu não vou me magoar por isso ― que me conheça o suficiente para saber que eu vou ficar agradecida com qualquer porcaria sofrida que me diga e que não me deixe sozinha nesse mundão gigante, cheio de gente sofrendo bem mais que eu. Mostre-me que eu não sou a única e nem a pior, mas também que o meu sofrimento tem validade assim como qualquer outro.

Só, por favor, não me esqueça nem me ignore. Não me deixe sozinha. Porque se tem algo que eu acho muito pior do que sofrer, é não ter com quem compartilhar o sofrimento. Não ignore meu choro, só chore comigo. Quietinhos. No nosso cantinho. Sabendo que o mundo não vai acabar.

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Vamos descomplicar?

Vamos descomplicar? Essa vida muito cheia de vai e vem está me deixando exausta. Estou exausta de complicações, de noites de sono perdidas, de preocupações pesando o coração. Ultimamente eu só estou querendo respirar, sem expectativa, sem exagerar. Só quero respirar e deixar o pulmão leve e o coração também. Talvez eu só queira começar a enfrentar as coisas sem pensar direito sobre elas. Porque as coisas passam; tanto boas quanto ruins. De que adianta, então, se martirizar? Cansei. Cansei de esperar, de inventar diálogos, de tentar adivinhar o que a pessoa do outro lado do mundo pensa sobre mim.
Erguer o queixo, respirar fundo e fazer o que tem que ser feito. O resto? Continua sendo resto. E não vai ser ele que vai atrapalhar a sua vida. Comecei a tirar os entulhos, a responder as dúvidas, a pagar as dívidas. Comecei a limpar o caminho para poder seguir em frente. Chega do passado. Passado só serve para quando o presente está demasiadamente insuportável.
Rolando as páginas do tumblr encontrei, ao acaso, a frase: “arrisque ser simples”. Estou arriscando. Vivendo cada dia como se fosse o último? Não acho que tenha fôlego para isso. Mas certamente tenho ânimo para deixar o dia mais leve e mais recheado de coisas boas. Os milagres vêm aos poucos. Prevê-los é de pouca utilidade. Algum dia você vai ser surpreendido e vai adorar e sorrir muito. E você não pode ter o coração pesado e o cérebro cheio de dúvidas. Resolva-se. Hoje preferencialmente. Resolva, limpe o seu coração e reserve um espaço bem grande para satisfações. Porque cada dia é um novo dia e pode muito bem ser o seu último. Mas o viva como se fosse o primeiro, como se você estivesse descobrindo os milagres, como se o sorriso fosse fácil, como se qualquer preocupação fosse tola. E talvez realmente seja.

Descomplique. Vamos transformar essa brincadeira em vida real. Vamos descomplicar.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Sol

E então quando o sol se libertou, fazendo longos raios amarelados escaparem pelos vãos da nuvem de algodão, foi como se o mundo tivesse suspirado em uníssono.
Como se o dia renascesse.
Como se a vida recomeçasse.
Aquele sol escondido por trás das nuvens apareceu e iluminou o mundo com o seu brilho. Cegou. Esquentou a pele. Fez as pálpebras ficarem vermelhas.
A esperança de um novo dia. O sol saindo de trás das nuvens foi similar a um sorriso iluminando uma carranca. Ou ao sorriso do olhar. O sorriso do olhar…
O meu olhar sorriu e a minha pele ferveu. Ficou dourada, brilhante.
O sol brilhava lá fora.
E eu me sentia renovar.  

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Esquecer

Retirada do Deviantart

Nós esquecemos. Nós nos esquecemos de atividades e de provas. Nós nos esquecemos de arrumar a cama. Nós nos esquecemos de pentear o cabelo. Nós nos esquecemos de passar rímel e de amarrar o tênis. Nós nos esquecemos de responder uma mensagem e de deixar um recado para alguém de quem sentimos falta. Nós nos esquecemos de colocar o despertador. Nós nos esquecemos de levar a toalha quando vamos tomar banho. Nós nos esquecemos de passar batom. Nós nos esquecemos de estender a mão. Nós nos esquecemos de sorrir e de chorar. Nós nos esquecemos de perdoar. Nós nos esquecemos de pedir perdão. Nós nos esquecemos de esquecer. Nós nos esquecemos de descansar. Nós nos esquecemos de realmente olhar o que está acontecendo. Nós nos esquecemos de agir. Nós nos esquecemos de ler um livro e de assistir um filme. Nós nos esquecemos de rabiscar uma folha qualquer com desenhos ou palavras. Nós nos esquecemos de nos organizar. Nós nos esquecemos de arriscar a bagunça. Nós nos esquecemos de dormir. Nós nos esquecemos de ficar acordados. Nós nos esquecemos de muitas coisas, incontáveis coisas. Mas, às vezes — e esse é o mais cruel e importante de todos —, nós nos esquecemos de viver. E é, nesse momento, que precisamos respirar fundo e esquecer de esquecer.