Fecho meus olhos e sinto o vento gelado perfurando minha pele exposta. O vento agita meu cabelo e isso o faz pinicar minha nuca, porém não rio. É como se estivesse privada disso; de rir, de sorrir. Minha vida foi levada com esse vento. Abraço meu próprio corpo, com frio. Estou cheia de blusas, entretanto me sinto nua, vazia, despida. Encaro o céu. Um bando de pássaros passa voando rumo a um objetivo que eu queria ter. Cruzo meus braços no meu peito e sigo meu caminho, me dirigindo para o lugar mais próximo, desejando apenas que a dor escapasse.
A dor era do abandono. Era forte. Era um medo, um receio, que se tornava realidade. O tempo nos faz sentir a presença da pessoa até onde ela não está, mas também nos faz esquecer. Lentamente, um processo insuportavelmente lento, mas real. A presença se apaga. E então um dia você olha para o lado, para aquele objeto que a pessoa tinha uma afeição estranha que você chegava a rir, e percebe que nada mais mexe com você. Percebe que aquele objeto é apenas isso; um objeto que ninguém jamais deu vida.
Paro na loja mais próxima, vendo nas roupas a presença dele. Lembro-me de que ele costumava pegar as roupas mais engraçadas e me mostrar, falando que as compraria. Mas essa não era a parte mais engraçada. A parte mais engraçada era o jeitinho que ele puxava o cabide que tinha a roupa; com cuidado, como se fosse de porcelana, entretanto quando iria devolver o cabide ao seu devido lugar sempre derrubava outras peças e fazia uma careta de cachorro culpado. Era seu descuido que me encantava; seu jeito divertido, descontraído, que não ligava para nada, mas que se importava com alguma coisa. Aquilo era único dele.
Reviro as peças de roupa na loja, procurando a magia, o encantamento. Mas ele desapareceu. Não tem mais o brilho, a graça. Ela se esvaiu.
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