E aquilo foi tudo. A gota d'água, como costumam chamar. A gota d'água que abriu caminho para o mar de amor que explodiria de dentro de mim. Quando li aquelas palavras, me apaixonei. Como nos apaixonamos por uma paisagem bonita pintada em um quadro ou por uma foto tirada do ângulo certo. Apaixonei-me pela colocação dos verbos e nunca pensei que pudesse me interessar tanto por gramática.
Sabe aquela vontade louca de agarrar alguma coisa pelo cheiro ou pela textura ou pelo efeito que isso exerce em nossa mente, em nosso corpo e em nosso coração? Confesso que minha cabeça obtusa pensava que apenas os corpos feitos de carne que poderiam nos dar essa sensação de ser bem-vindo, mas descobri uma outra coisa, uma coisa nova e até melhor. Sabe aquela história de se apaixonar pela beleza interior? Comprovei isso no momento em que abri aquela capa e entrei em outro plano e fiz dele meu lugar.
Quando me perguntam se eu acredito no que eu leio, eu digo que sim. Aquilo é real, alguém pensou naquilo, aquilo é real na cabeça de alguém, aquilo é real para quem escreveu, portanto aquilo é real também para quem lê. Falei muito a palavra "aquilo" e, apesar de eu achar um insulto chama livros de "isso" ou "aquilo", eu também os chamo assim por falta de definição melhor que substitua a palavra real.
Na verdade, existe outra palavra que eu uso para definir melhor os livros. "Bebês", mas creio que isso não combina para um texto. Eu os chamo assim porque eles são meus filhos. Tenho de cuidar deles, dá-los remédios quando ficam doentes ou espalhar as suas histórias quando alguém precisa de ajuda. Eles são aquele 'tudo" que precisamos quando estamos mal. E eles são meus filhos também porque se preocupam comigo, sussurrando suas histórias em meus ouvidos enquanto eu durmo.
Identificamo-nos com todos os livros. Temos várias faces dentro de nós, assim como um livro tem muitas páginas dentro dele. Quando viramos outra, descobrimos uma nova face nossa, seja ela repleta de felicidade, dor ou amor.
É como se eu entrasse em outra pessoa e pudesse ver o mundo de uma nova perspectiva, mais ampla. É como se os erros do meu personagem preferido se convertessem para meus erros e eu aprendesse com eles. É como se a vida parasse por um momento para eu voltar ou avançar no tempo.
É tudo, como eu já disse.
Perguntam-me como eu consigo ler escutando música e eu sempre devolvo com outra pergunta equivalente. Como se pode tocar e cantar violão ao mesmo tempo? Como se pode mexer no computador escutando música? Como se pode assistir um filme sem se desconcentrar, sendo que nele também tem música? A música faz parte da leitura, assim como do filme. Se soubermos como ajeitar o compasso e a melodia da música com o que estamos lendo, tudo fica bem. O livro é um filme que nós podemos criar. Infelizmente não podemos mudar o rumo da história ou fazer os personagens um pouco diferentes. Eles são o que são, invariáveis. Mas - felizmente - nós, humanos, não. Podemos permanecer em nossos ideais e mudar nossas ideias de acordo com o que lemos, ou ao contrário (permanecer em nossas ideias e mudar nossos ideais).
Já perdi o controle de minha paixão há um bom tempo, mas isso eu não quero controlar. Deixarei os livros o fazerem por mim, porque eles dominam essa área.

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